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A música brasileira durante a ditadura militar

Alô, pessoas!
Como muitos sabem, o Brasil passou por muitas mudanças no século XX. A ditadura militar de 1964, que se estendeu por mais de 20 anos, foi uma das mudanças mais radicais que o país presenciou. Radical pelo o fato de que houve muita repressão e promulgação dos Atos Institucionais, onde, alguns, em especial, censurava algumas músicas, filmes e qualquer manifestação que fosse contra à ditadura, sem falar de que ainda houve tortura, mandatos cassados e muitas pessoas exiladas. 
Por causa desse Ato Institucional em particular, muitas músicas da década de 60 até a metade dos anos 80 foram censuradas por possuírem letras que criticassem a forma de governo e que chamava o povo para lutar contra a ditadura nas ruas. 
A censura era tão grande, que as músicas passaram a ser mais complexas, com letras enigmáticas e com interpretações complicadas o bastante para enganar os militares. Mas, apesar da complexidade de algumas letras, ainda teve censura em diversas músicas que falavam diretamente sobre o sofrimento, a angústia e a dor de uma forma agressiva e, muitas vezes, melancólica. 
Para não dizer que eu não falei das flores, de Geraldo Vandré, é um exemplo de um chamado para o povo brasileiro para ir à luta, além de falar, de forma triste, sobre o sofrimento das pessoas em tempos atrozes e deixar claro que a história está na mão do povo e que depende do povo para mudar o rumo que a história tem que tomar. Essa música é um dos hinos presentes entre manifestantes até hoje, tendo uma das frases mais icônicas da MPB: "Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.".
Raul Seixas foi um mestre em compor músicas que criticassem o governo e o cenário nacional da época. Músicas como Mosca na Sopa e Sociedade Alternativa são exemplos de composições icônicas da época. Mosca na Sopa, apesar de parecer ter uma letra aleatória, típica do estilo de Raul, possui uma interpretação muito interessante, que é passar a ideia de que ele é a mosca na sopa do governo e que se o governo tentar silenciar ele, viriam outras pessoas em seu lugar para lutar. Quanto à Sociedade Alternativa, pode-se considerar que é uma música demasiada arriscada, pois desde o começo até o fim da música, é perceptível a aura revolucionária de quebrar regras que possui. Mas o verso que se deve prestar mais atenção e que se repete várias vezes na música é: ''Faz o que tu queres, pois é tudo da lei, da lei''.
Mas não foi Geraldo Vandré ou Raul Seixas apenas que eram mestres na arte de compor músicas enigmáticas, pois surgiu um movimento musical no final dos anos 60 que se popularizou muito na época, a famosa Tropicália (ou Tropicalismo), composta por várias vozes aclamadas pelo o Brasil tanto na época, quanto agora, tais como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Gal Costa, Tom Zé e Nara Leão. Músicas como Alegria, Alegria (Caetano Veloso), Panis et Circenses (Caetano Veloso e Gilberto Gil, interpretada por Os Mutantes), Aquele Abraço (Gilberto Gil) são grandes exemplos que fizeram muito sucesso na época e que merecem um grande reconhecimento.
Como é notável, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram peças marcantes para a Tropicália, mas eles não foram os únicos compositores a criarem ''obras-primas musicais'', pois o compositor Torquato Neto marcou presença na Tropicália, apenas compondo músicas como Geleia Geral. 
No final da década de 60, em 1968, o Ato Institucional 5 (AI-5) foi proclamado. Nessa época, não foram apenas as músicas que foram censuradas. Muitos cantores foram exilados ou presos por causa do estilo das músicas que cantavam ou pela a forma de agir.
Caetano Veloso, por exemplo, foi um dos primeiros a passar por um exilamento, pois no mesmo em que o AI-5 foi proclamado, ele foi preso, em seguida, em 1969, foi exilado, voltando para o Brasil apenas em 1972. Além disso, grandes personalidades como Gilberto Gil, Chico Buarque e Raul Seixas tiveram que deixar o Brasil também.
Mas apesar da censura, dos exilamentos e prisões que calavam as pessoas à força, a música não parava. A década de 70 foi um leque de músicas mais críticas, com letras mais pesadas e com metáforas complexas o bastante para não ser compreendida tão facilmente e enganar os militares. Entretanto, embora fosse comum músicas mais críticas, ainda haviam as músicas com temas menos políticos. O Brasil não era um país só com grandes críticos, mas também com grandes apreciadores da vida jovem, que curtia a vida adoidado como um típico jovem de 18 à 25 anos. A "Jovem Guarda", formada por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, foi uma prova de que, apesar de toda a censura e coerção, ainda era possível desfrutar da juventude. 
Mas um questionamento que pode surgir para muitos é: como eles fizeram sucesso se a censura era demasiada grande? A resposta é bastante simples. Na verdade, o que levou grandes cantores à fama foram os festivais de música popular que começaram um ano depois de a ditadura se estabelecer no Brasil. 
Vale ressaltar que a ''Jovem Guarda'' tinha sido um programa que reunia muitos cantores, duplas e bandas da época, e era transmitido pela a Record. Esse programa divulgava o trabalho desses artistas e era aclamado por muitos jovens, se tornando um programa de grande audiência. A ''Jovem Guarda'' surgiu anos antes do AI-5 ser proclamado, por isso, os jovens tinham mais liberdade para cantar suas músicas, apesar de que a maioria dessas músicas eram românticas ou que falava de como era ser jovem na época. Mas, com o AI-5, o programa saiu do ar.
Indo para os anos 70, década onde grandes sucessos foram gravados como O Bêbado e a Equilibrista, Sociedade Alternativa, Cálice, Apesar de Você, Eu quero é botar meu bloco na rua e entre outras. Essas músicas citadas foram algumas das muitas censuradas durante a ditadura e a a partir dessa década, não eram apenas músicas que evidenciavam um hino contra a ditadura, mas como também músicas que sequer faziam menção ao governo, tais como a clássica Tiro ao Álvaro, que foi censurada por causa dos erros gramaticais.
No entanto, a ditadura não impediu que algumas das preferidas dos brasileiros fossem ouvidas nas rádios. A década de 70 ficou marcada mundialmente pelas músicas de discoteca, o estilo punk e entre outros diversos estilos. Estilos os quais os brasileiros puderam conhecer em plena ditadura militar. Vale lembrar de que o samba ainda se fez presente e o carnaval continuou sendo uma tradição brasileira com blocos de rua e com as escolas de samba, mas, claro, com limitações.
Para a alegria dos brasileiros, no final da década de 70, o Brasil começou a passar por um processo gradual de redemocratização. E, a partir daí, o Brasil passaria a ser mais democrata, a começar pela revogação do AI-5, em 1978, durante o governo de Ernesto Geisel.
Nos anos 80 os brasileiros estavam um pouco mais livres para compor músicas, mas ainda era algo delicado. Muitas bandas surgiram nesse período, principalmente bandas de rock que faziam inúmeras críticas à respeitos de vários assuntos. Foi nessa década que surgiram bandas como Legião Urbana, Barão Vermelho, Plebe Rude, RPM, Titãs e entre muitas outras.
Muitos acontecimentos memoráveis marcaram a década, tais como o fim da ditadura militar, em 1985 e o primeiro Rock in Rio, que aconteceu no mesmo ano.
A ditadura militar trouxe consigo muitas consequências, mas, apesar disso, trouxe também, musicalmente falando, influências de uma geração jovem e intelectual que mudou a música brasileira a partir de letras poéticas e críticas.

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